18/02/18

INESPERADO - REGRESSO DA RADIO CONVICCIÓN ?


Encontrada por acaso a ligação da extinta Radio Convicción, e experimentada depois, eis que... o inesperado: o linck abriu!

Não temos grandes informações a dar do fenómeno, porque nem houve tempo para explorar o assunto. Segundo parece pela data da primeira publicação, a Radio Convicción terá reaparecido em Outubro de 2017. No site não aparece mais que publicações, não há ligação para aceder a qualquer transmissão de áudio.

Que rádio é esta? Para quem não sabe, esta foi uma rádio tradicionalista do Chile subsidiada pela FSSPX, e que tinha como maior finalidade a formação católica.

O que vai acontecer? Quem tiver notícias, informe.

17/02/18

MEMÓRIA - Dias Proibidos ao Espectáculo

Procissão do Enterro do Senhor - Braga

Dias em que são proibidos os espectáculos públicos

- Quarta feira de Cinza e em todas as Sextas feiras de Quaresma
- Desde Sábado de Lazaro até Domingo de Páscoa inclusive
- Quinta feira de Ascensão, Domingo do Espírito Santo, e dia da Procissão do Corpo de Deus da Cidade [de Lisboa - igualmente em todo o Reino]
- Nos dias 24 de Setembro, 1, 2 e 15 de Novembro, e 25 de Dezembro.
- Nos dias de luto da Côrte, por morte de Rei, Rainha ou Pessoa Real.
- Nos dias em que se fizerem preces públicas por grandes calamidades.

(Alemanaque de Lembranças Luso-Brasileiro - 1858)

Enquanto alguns Reinos se tornaram protestantes, enquanto que outros se tornaram "neutros" por dividirem o território com o protestantismo, enquanto outros estavam ocupados com a república laica, Portugal e Espanha permaneceram com leis e costumes antigos e de grande valor cujo catolicismo é a base. Em algumas cidades de Portugal, já para nem falar de Vilas e Aldeias, as manifestações púbicas religiosas continuam a ser consideradas de toda a cidade. Esta subsistência está mais amplamente manifesta na SEMANA SANTA, parte central da Quaresma.

Enquanto que em outros lados a Quaresma esteva muito limitada ao PARTICULAR, em Portugal tinha aplicação social e de Estado. Onde numa república laica, como aquela que hoje nos ocupa, se proíbem os espectáculos em dias de jejum e abstinência quaresmal?

Se abandonarmos as nossas obrigações, é mal. E se abandonarmos os nossos direitos, também é mal (não defendamos o contrato social de Rousseau, que faz razia de direitos e deveres, e distribui a todos por igual). O português, distingue.


VIA SACRA NAS RUAS DE LISBOA - 2018


Como ainda é costume em Portugal, na Quaresma a Via Sacra é feita pelas ruas, à noite, passando pelas 14 estações abrigadas em capelinhas antigas.

Em Lisboa tais capelinhas não existem nas ruas de todas as paróquias. Portanto, seria esperado ver nestes casos a realização da neo-Via Sacra de 15 estações. Mas não. No centro de Lisboa, à noite, pelas ruas, continua a Via Sacra de 14 estações, acompanhada de outros santos momentos: Confissões, Lausperene, e até Missa tradicional (segundo consta).

A Quaresma ainda mostra ser de grande importância para os portugueses. No Interior ainda se conserva a Procissão dos Penitentes (que correr riscos), a qual se manteve desde a Idade Média. A Semana Santa em Portugal e Espanha ainda mostra como para os nossos antigos um tempo da máxima gravidade, devoção, seriedade, e conversão interior.

14/02/18

CANAL PEDRO de OLIVEIRA - Actualizações - Fevereiro 2018


O Canal de Youtube PEDRO de OLIVEIRA fez um percurso positivo até ao seu último vídeo. Por acidente, 2 vídeos com partes editadas foram perdidos por motivos informáticos; estes iriam inaugurar a série BANDEIRAS (na qual se pretende mostrar a natureza e origem de bandeiras "nacionais" em Portugal e Brasil). Outros dois temas estão iniciados; sendo um uma refutação aos Rosa-Cruz em certa tese sobre o Real Convento de Mafra, e o outro sobre umas falsas aparições em Portugal.

Até ao momento há um total de 9 vídeos originais, sendo um deles uma transmissão em directo (não acessível ao público), e sendo outro a resolução de uma dúvida sobre os solstícios (também não acessível ao público).

VIDEO MAIS VISUALIZADO DE SEMPRE - "Pinhal de Leiria Sem Mistérios" (500)
VIDEO PÚBLICO MENOS VISUALIZADO DE SEMPRE - "Mix I" (200)

NO TRIMESTRE QUE DECORRE:
- o público foi 56% masculino, e 44% feminino;
- 65% do público é brasileiro, 33% é português, etc..
- o vídeo mais visto é o "Pinhal de Leiria Sem Segredos", depois o "Mix I", em seguida o "Livros II B", e o "Livros II A".

O canal vai com mais de 1900 visualizações, e 47 inscritos, que significa que cresce a uma modesta velocidade.

Até breve.

09/02/18

HUMOR - Covilhã homenagiada pela Rádio Comercial

O BRASÃO PELO QUAL SE PODE ORAR CDXLXII

"DEFESA DE PORTUGAL" - AS TREVAS em PORTUGAL (d)

(continuação da parte c)

Administrar fielmente a Fazenda Real! Ora eu já deu uma coça nos Judas, mas como foi de papel, não prestou: é necessário que lhes aconteça como ao de quem fala hoje a Igreja "Suspensus crepuit medius" enforça-los, e rebentá-los. Mas quem são esses Judas? é pergunta, que há pouco me fizeram de Lisboa. Eu não estou em circunstâncias de responder "Qui intingit manum in paropside".... Todo o que siza da Fazenda Real, ou que faz para sua culpa que ela não medre, é Judas; e o que mais culpas tiver a este respeito, é o Judas maior. Mas não faltam Teólogos, Padres, e Frades, que persuadam a esses Judas que não ofendem a Deus, por muito que menoscabem a Fazenda delRei, que é o Ungido de Deus! Teólogos, Padres, e Frades dos Judas, que nas suas decisões, respostas, e na mesma administração dos Santos Sacramentos não seguem a tradição, seguem somente a razão, especialmente se esta fôr dourada, ou argumentada, ou mesmo açucarada, ou engarrafada, ou emantilhada. Pois também a razão sem tradição nos Padres Mestres! Também as trevas nesses Reverendos Provinciais, Secretários, Definidores, e mais Camerários Religiosos? Também nos Conventos não há luz?

Igreja dos Clérigos erguida em 1732 no Porto, símbolo da generosidade portuguesa para com os Clérigos mais necessitados.
Tocam as tabuletas: agora sim, agora são as mesmas trevas em pessoa: espreito os Conventos; também lá, também lá! As mesmas Freiras dos... apagarão a luz, então em trevas! Não haverão remédios? Sim: logo que cesse a matraca, se ela for bem ouvida, a luz aparecerá. O malhadismo, ou as trevas têm aparecido, e vão aparecendo por toda a parte, até mesmo onde a luz parecia inextinguível; o espírito de Satanás pôde já introduzir-se nas Eleições dos Regulares, para ali se encabeçar o erro, e o vício. Uma Abadessa Malhada! Que lições de inocência poderá dar às suas Religiosas? As suas subalternas, e adjacentes não serão também da escolha da mesma Abadessa? Não franquearam elas as portas à devassidão, e à licença? Não serão consentidas comunicações escandalosas, tratos vergonhosos? E se ainda alguma Religiosa, a quem Deus queira reservar para si, levantar a sua voz em defesa das tradições do seu Convento, não será ela abafada pela gritaria das outras, que não querem seguir mais que a sua razão, estando a sua razão somente na libertinagem? Desgraçadas as Religiosas, que vivem debaixo do Abadessado Malhado, ou das trevas, que vale o mesmo!!! Quanto a mim, a haver de sofrer um dos males, quereria antes ser governado por Malhados, que por Malhadas, porque uma Malhada é um vórtice de inconsequências, e de maldades; roda, que não para, nem há prégo, que a sujeite, enquanto não der cabo de tudo o que encontra. As Religiosas porém, que buscam remédios aos seus achaques de espírito, achá-los-hão na oração, e no sofrimento; sem embargo de que não contradiz à humildade uma súplica em termos ao Bispo, ou Governador do Bispado, se ele quiser atender às Esposas de Jesus Cristo. Mas basta de remédios de Freiras; porque não nasci eu para dissipar as trevas dos Conventos, nem para lhes tirar as suas malhas!

As trevas estarão também nos Religiosos? Como? Empunhando o Ceptro algum dos Súcios, e afilhados de José da Silva Carvalho! Tocará logo a matraca sobre os bons Religiosos! Licença à depravação, soltura às paixões, desenfreio à mocidade! Lá irá até a Ordem de S. Francisco, se Deus lhe não permitisse uma duração igual à do Mundo! Pedreiros, Constitucionais, Malhados, também nas Igrejas, nos Conventos, e empolgando os maiores Empregos!.. De certo é entregar aos inimigos da Igreja o Património da mesma Igreja! Logo que eu vejo ocupando lugar numa Congregação de Regulares algum Padre de pouca idade, de menos merecimentos, mas de muita presunção, e que já aspira a uma Mitra!!... Estou para dizer Adeus às Corporações Religiosas, se não tivesse em Deus uma esperança viva, de que não há de permitir que as trevas ocupem para sempre toda a terra! Continuam as trevas. Onde? Em uma grande Sé de Portugal! Como? Ora apalpem lá como puderem, porque isto não o vê quem deve; mas eu lho digo. Um Clérigo de mau nome em toda a extensão da palavra desde os pés até à cabeça, desde o seu nascimento até à sua elevação, procura em toda a Diocese assinaturas do Clero, Nobreza, e Povo, para que ElRei Nosso Senhor o eleja para Bispo, ou Arcebispo, ou o quer que é, que a língua não quer chegar!!! As trevas continuam, mas a Epigrafe não. Apaga-se a luz: se os Portugueses querem ver, e ouvir o que lhes convém, sigam todos os costumes, que seus Ascendentes praticavam no ano de 1732, e haverá então Justiça, e Religião; haverá Paz, e Prosperidade; haverá Rei, e Vassalos; todas as coisas estarão no seu lugar, e eu no que me cumpre, que é o da morte, para não ver tantas, e tantas coisas, que parecem inventadas pelo diabo, para não haver coisa boa. [demova-se aquele que amaldiçoa o séc. XVIII sem discriminar Reinos]

Rebordosa 18 de Abril de 1832.


Fr. Alvito Buela Pereira de Miranda

07/02/18

CONVERSAS - O RITO ROMANO


Transcrevemos de um debate no Facebook a parte final, onde o interveniente que defendeu a Missa Tradicional resumiu assim o que havia dito:

"Tradicionalista - nem há necessidade de discutir mais, porque o assunto está mais que trabalhado principalmente por outros:
1 - O Missal de Paulo VI não é nenhum melhoramento ou evolução do Missal de João XXIII. Quem o diz? O Card. Ratzinguer explica, e está publicado, que o Missal de Paulo VI não proveio da Tradição, mas que foi uma fabricação de gabinete. O próprio Mons. Bugnini, responsável na elaboração do dito missal, explica porque ele foi feito ( no seu livro "a Reforma Litúrgica"). Diz que a intenção no Missal de Paulo VI é criar uma formulação da Missa resultante da remoção de tudo o que da Fé católica pudesse não coincidir com a formulação luterana. Se até então a Igreja tinha considerado o Rito Romano como um edifício da Doutrina/Fé, com o Missal de Paulo VI todos os elementos da Fé que desautorizam a heresia protestante foram removidos (lindo! ). Por isso, os maiores críticos deste Missal não tiveram qualquer dificuldade em acha-lo "protestantizante". Além disto, também a sua elaboração foi acompanhada por 6 protestantes (depois recebidos por Paulo VI - existe a foto do momento, publicada no l'Observatore Romano) diz-se "protestantizado". Assim, como seria de esperar, e segundo o que vemos hoje, os católicos ficam abertos a "interpretações" protestantes a respeito das coisas cristãs, ou seja, verdadeiramente vítimas do escândalo que ali passivamente sofrem com a assistência àquelas Missas. Ex: a Doutrina Católica ensina que a Missa é "Santo Sacrifício", enquanto que hoje se diz e abusa de que a missa é a Ceia, e são raros os católicos que agora ouvem dizer "sacrifício".
2 - O projecto para um novo missal deste tipo não veio por via do Concílio Vaticano II, como querem dizer alguns, porque em sessão conciliar o mesmo projecto foi logo reprovado.
3 - O Missal que fixou o Rito Romano foi o chamado "de S. Pio V". 400 (ou 200!?) anos antes disto o Rito Romano tinha sido corrompido com inovações locais, aqui e ali os contaminados pela liturgice, os vaidosos "litúrgicos", e outros tantos motivos injustificáveis de inovações contrárias ao sentido e equilíbrio do Rito, produziram novas formas assentes em Missais. S. Pio V proibiu todos estes Missais alterados durante tal período, e manteve todos os mais antigos. O Missal de João XXIII não surge como uma nova formulação da Missa, mas sim como uma PUBLICAÇÃO, uma edição do Rito Romano fixado por S. Pio V, submetida (a regra é o de S. Pio V), agora com a introdução das rubricas (tipo de notas de rodapé, que antes existiam em outro livro externo), etc.. Como a regra do rito Romano na Missa é o de S. Pio V, a edição de João XXIII nunca fez a regra (o que permite por ele continuar a rezar os dois Confiteor, sem estar a violar coisa alguma). Vc. diz bem ao referir uma evolução no Rito Romano, e a Igreja o disse sempre... mas usa "evolução" como hoje o fazem os teólogos que seguiram a inovação, e perderam o anterior: com o sentido moderno marcado pelo "evolucionismo", e não segundo o pensamento católico (St. Tomás de Aquino).... vale MUITO a pena dizer algo sobre isto, e vai gostar:
a) Evolução não significa mutação, e estas são ideias na realidade opostas. Os evolucionistas dizem "evoluiu, porque mutou", e os católicos, e os clássicos sempre disseram precisamente o contrário. Repare.
b) Uma semente de roseira em POTÊNCIA contém a roseira, já com todas as características que virão etc... Quando a semente entra na terra e recebe as condições necessárias vai aparecendo gradualmente como roseira. Isto não é fruto de mutação.... isto é EVOLUÇÃO, porque gradualmente da POTÊNCIA se passa a ACTO. Evolução sempre tinha sido entendida como VÉU que cobre algo e que depois revela o que lá esteve sempre.
Passemos ao Rito Romano que foi ensinado por Nosso Senhor a S. Pedro (segundo a milenar tradição diz). A evolução que daqui podemos verificar não é mais que um desdobramento das mesmas verdades que sempre estiveram contidas no rito e que a seu tempo foram tomando visibilidade conforme a necessidade. Ex: em França nasceu a elevação da Hóstia na consagração, por necessidade que o grande espaço e quantidade de fiéis... Cristo imolado sempre foi dado em adoração, porque é aquele o momento em que está elevado na CRUZ (Santo Sacrifício da Cruz). A NÃO ELEVAÇÃO, anteriormente, expressava menos a realidade CONTIDA. Logo, é uma evolução verdadeira a precisão deste gesto associado ao Santo Sacrifício.
Parece-me o suficiente... Mas se tiver qualquer outra questão a este respeito, faça o favor de dizer."

Ainda que o autor da resposta tenha organizado as ideias por pontos, lembramos tratar-se de uma conversa de facebook, à qual há que dar o devido desconto.

Aproveitamos a ocasião para fazer uma queixa: ao queremos encontrar no Google uma foto de uma Missa Tridentina de aspecto mais SIMPLES, não conseguimos até ao momento... São todas muito brilhantes... enfim, coisas dos novos tempos! Continuaremos a procurar algo belo, mas mais sóbrio, porque faz falta.

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº10 (IV)

(continuação da III parte)

4ª Desde a perda de África até ao ano 1668

Frei Heitor Pinto - intelectual covilhanense
exilado em Castela
Abrem a cena destes infaustos dias, em que principiou a nossa escravidão, muitos Frades vítimas da sua lealdade ao Trono de seus Reis naturais; e basta-me apontar os nomes do Jerónimo Fr. Heitor Pinto, zelosíssimo propugnador dos direitos da Casa de Bragança, do Cisterciense Fr. Crisóstomo da Visitação, impertérrito seguidor da mesma causa, e que à imitação do primeiro acabou seus dias no desterro, e do ilustre Dominicano Fr. José Teixeira, que de envolta com outros Religiosos da sua Ordem foi exceptuado da amnistia que o intruso Filipe I concedera aos partidistas do Senhor D. António Prior do Crato.

Sem trocarmos agora no serviço de se fomentar por todo o Reino, e por todos os modos, a nunca interrompida afecção à Sereníssima Casa de Bragança, que maior extremo de lealdade pôde haver que o executado pelo Monge de Alcobaça Fr. António Brandão, quando se atreveu a divulgar as Cortes de Lamego, que cortavam pela raiz os supostos direitos do Rei Castelhano? Se a Monarquia surge debaixo das ruinas em que a sepultara a dominação estrangeira, acodem prontas e fervorosas as Ordens Monásticas, para lhe darem a mão--- e as rendas dos Mosteiros se empregam na justa revindicação dos nossos direitos; e quando seja necessário que os Frandes acudam aos exercícios de Marte, um frade Bernardo os afugentará da Província do Minho, e outro Frade Bernardo, pela confissão dos Autores estrangeiros, deixará em problema se lhe fica melhor o bago, se a espada.


5ª De 1668 até ao presente

Durante as épocas de segurança, de paz, de tranquilidade, assim interna como externa, custam mais a aparecer os relevantes serviços das Ordens Religiosas. A ocasião do perigo e das calamidades públicas é sempre aquela, em que melhor desenvolvem e manifestam as suas virtudes patrióticas. Eu poderia citar neste longo intervalo de mais de um século entre os Cistercienses um Historiador digno de seguir as pisadas dos Britos, e dos Brandões; entre os Theatinos uma sociedade de Atlantes, que podem com o peso do Dicionário da Língua, e da História Geanealógica da Casa Real; entre os da Terceira Ordem um D. Fr. Manuel do Cenáculo, assaz louvado quando se nomeia, e um D. Fr. Caetano Brandão, que não é só Filantropo na língua e na pena, mas que o é nas obras, aplicando os rendimentos da sua Mitra a fundações pias de todo o género, para meninos órfãos, para mulheres do mundo, para velhos doentes e estropeados, e até dando prémios a quem sobressaia em certos ramos de agricultura; cheguemos porém à Invasão Francesa, e aqui se decidirá de todo a nossa causa.

Que fizeste, Pedreiro, quando a tua Pátria se viu tantas vezes ameaçada, e afinal invadida? Mostraste uma alegria indecente e escandalosa, porque eram chegados os nossos Regeneradores; não houve serviço humilde, nem baixeza que de com grado não praticasses, a fim de teres propícios os vencedores de Marengo, e da Austerlitz...

E que fizeram os Frades? O que tu não terias ânimo de fazer, ainda que tivesses debaixo de tua chave os tesouros do Grão Mogol... Deram para a guerra quanto podiam, e mais que podiam; e tal Corporação houve, que se empenhou em mais de duzentos mil cruzados para coadjuvar o Estado (Alcobaça), e para não ficarmos regidos pelo Código Napoleónico, já muito bem traduzido em linguagem pelo sábio Jurisconsule Moura, que assim veio escarrado no então oráculo das Nações Europeias, o Monitor...

Este punhal, por mais que corte e despedace, nunca se lhe embotam os fios, e ainda vai fazer das suas na

Conclusão

Contribuir tão poderosa como eficazmente para a fundação da Monarquia Portuguesa; não só dirigir, mas executar com as próprias mãos os trabalhos mais pesados da agricultura; promover os estudos neste Reino à custa da própria fazenda; sair a campo não só com os dinheiros, mas também com risco das próprias vidas, todas as vezes que Portugal foi ameaçado de perder a sua gloriosa independência; opor um muro de bronze à tentativas de heresia e da impiedade, assim no século XVI, como nos séculos XVIII e XIX; civilizar nações estranhas, e conseguintemente sujeitá-las de bom grado à nossa Monarquia... Tais são os nossos títulos abonados por inumeráveis Escritores, e presenciados por uma infinidade de testemunhas...

Pedreiros, quais são os vossos? No curto espaço de menos de três anos, em que vossas mãos trémulas e incapazes de tudo o que é bom, sustentaram o leme dos negócios públicos, foi acima das areias do mar o de vossos delírios e atrocidades... Se continuais um ano só que fosse... nunca mais seríamos Portugueses... A vossa infâmia e a vossa incapacidade acham-se escritas de maneira indelével na desmembração do Brasil, no deficit enorme das rendas públicas, e no esgotamento da riqueza nacional; e será mais fácil meter o mar numa concha, ou fazer do preto branco, do que mostrar, ainda sofisticamente, que sois ou podeis ser úteis ao Estado.


Utilidades Religiosas, e Políticas que provém actualmente dos Mosteiros.

Ainda torno a falar convosco, eus Pedreiros, nem convinha que eu vos deixasse facilmente sem vos ter pago, quando em mim fosse, e dívida imensa em que haveis posto as Ordens Religiosas. Ficam estas para sempre enobrecidas pelo vosso ódio, exaltadas pelo vosso desprezo, cada vez mais seguras pelo vosso furor de extinções, e mais profundamente arraigadas pelos vossos Projectos de Reforma. Pode tanto a infâmia de que estais oprimidos à face da geração presente; não se começaria a propósito a demonstração das "utilidades Religiosas, e Políticas dos Mosteiros" sem que fosse apontada na cabeceira do rol porventura o mais nervoso de quantos argumentos podem trazer-se para o meu sujeito. Somos perseguidos pela Maçonaria Portuguesa, tem esta jurado abolir os Frades, porque os Frades advogam a causa da Religião Católica todas as vezes que ela é insultada e combatida, porque os Frades são adidos ao Trono, que os favorece, que os eleva, e a quem devem tudo que são de presente, enfim porque os Frades são contrários às suas obras más, tenebrosas e nefandas..... É tanto isto verdade, que mal apareceram outra vez os Jesuítas, e o S. Padre Pio VII derrogou a Bula do Papa Clemente XIV andavam tais que pareciam furiosos, e o seu trombeta Mr. de Pradt (o inimigo dos trabalhadores de Mr. Vhateaubriand sobre as vantagens, e belezas do Cristianismo) já disse que mal do género humano se estes Padres tornam a propagar-se; que infelizmente já os vê na Hungria, na Boémia, nos Estados da Casa de Áustria, no Piemonte, na Lombardia, em Nápoles; e que para mais penas sentir, já se vão metendo pela França, e que adeus ideias liberais, que esses malditos não deixaram frutificar, nem progredir.... É pois de eterna verdade, que por esse ódio figadal dos Pedreiros aos Frades se conclue necessariamente que os Frades são úteis por extremo à causa dos Reis, e à causa da Fé; e ainda que os nossos maiores não tivessem feito uma inumerável cópia nos pôr em toda a luz, como defensores natos da Igreja, e da Monarquia. Vamos pois insistindo nas propostas utilidades, e comecemos pelos que são de maior vulto para quem ainda crê que há Deus, que há Céu, que há Inferno, e que a Religião é o primeiro dever do homem inteligente, e criado para um fim sobrenatural.

Não se pode encobrir que por influência das opiniões modernas tem caído num certo desprezo a vida Eclesiástica, e o que ainda é mais de estranhar, nem todos os Clérigos se esmeram por adquirir e conservar os conhecimentos indispensáveis para o Estado Sacerdotal. Há tal rapazinho (e só aqui fica bem este nome) que sendo filho de pobres cavadores de enxada, todo se anoja de lhe falarem em ser Padre; assim como há Sacerdotes que só de terem lido sem atenção, e meramente por satisfazer, alguns princípios do Larraga se têm na conta de sabichões, que já não carecem de estudar mais nada para o tão árduo como delicado Ministério do Sacramento da Penitência. O próprio Voltaire conheceu tanto esta verdade que chegou a dizer que a extinção dos Frades o poria em termos de levar ao fim quanto premeditava sobre a Igreja Católica, e que nem o Clero Secular, nem os Bispos o assustavam com esses corpos numerosos, que faziam maciços impenetráveis para sustentarem a todo o custo a existência do fanatismo.

Recai pois de necessidade nas Ordens Religiosas a maior parte das confissões, e pregações; acaso as tais Ordens fossem abolidas, se experimentaria logo em todo esse Reino a maior falta de socorros espirituais, e por certo que uma grande parte dos fiéis chegaria cedo à terrível e duríssima extremidade de pedir o pão, sem haver quem lho repartisse. Nem se diga que os Frades não eram expulsos do Reino, e que reduzidos aos Estado Secular podiam assistir como dantes aos fiéis, e ministrar-lhes igualmente os socorros da vida cristã: pois quem discorre desta maneira ou não sabe, ou afecta não saber o tempo que costumam roubar os cuidados ordinários da vida, e que mui diferente coisa é o viver exonerado de procurar o necessário para a subsistência, e poder entregar-se todo às obras do Ministério Sagrado, ou descer a todos os cuidados, que traz consigo a substância, que não seria ela tão firme, e segura no reino constitucional, que desobrigasse os Ex Frades de procurarem outro modo de vida sob pena de morrerem todos à fome.

Deus livre esta Monarquia de experimentar uma carestia absoluta de Frades!! Alguns Povos, que em nossos dias têm experimentado, como são nomeadamente os Belgas Católicos, ainda hoje estão gritando por eles, e protestando que os Frades eram todo o seu remédio, e toda a sua consolação; e o mesmo ouviremos ainda hoje lastimar aos velhinhos dos colégios dos Jesuítas neste Reino, se porventura ainda existem, como é provável, muitos anciãos daquele tempo. 

Concluída que fosse entre nós a extinção dos Frades, não tardaria muito que um grande número de fiéis não perecessem destituídos do conforto dos últimos sacramentos, e que pelo menos aldeias, e povoações inteiras ficassem ao Domingo sem Missa, e que todo este Reino se fosse aproximando insensivelmente do estado a que os Mações o queriam reduzir.

Se estas vantagens puramente religiosas se fossem discutindo miudamente, por certo que não seria uma das menos consideráveis a que merece grandes aplausos a um Liberal (Mr. Mercier = Tableau de Paris), e vem a ser a assistência dos Frades aos infelizes réus desde que se lhes intima a sentença de morte até subirem ao patíbulo; nem ficariam no último lugar os deliciosos frutos, que por esta ocasião têm colhido os Frades, e de que a nossa História podia subministrar contínuos, e assinalados testemunhos.....

Onde são mais pomposas as grandes Festividades do Cristianismo, do que nos Mosteiros? Onde se ouve mais frequentemente a palavra do Senhor, que nos Mosteiros? Onde é mais fácil receber os Sacramentos da Penitência, e da Eucaristia, que nos Mosteiros? Onde há maior cópia de oradores Evangélicos não menos distintos pela ciência do que por uma vida exemplar, do que nos Mosteiros? Quem semeia a palavra de Deus tão felizmente como os virtuosos Missionários de Varatojo, e as mais filiações deste Sagrado Instituto? Se alguns Santos fundadores quiseram habilitar melhor o Clero Secular para que se empregasse frutuosamente nos mesmos trabalhos, deram-lhe a forma de Religiosos, fazendo-os viver em Mosteiros, observar a vida comum, etc., etc., etc.. Por isso nenhuma destas fundações, como por exemplo a dos Missionários do Instituto de S. Vicente de Paulo, ficaria em pé no meio da queda geral das Instituições Monásticas; e também por isso a Casa do Espírito Santo em Lisboa, que é de Clérigos Seculares, os quais se empregam com um zelo, e caridade acima de todo o elogio, na conversão, e direcção das almas, e que não tem nada com as Instituições Monásticas, assim mesmo por oito ou dez dias de livrou de experimentar o raio da extinção já despedido pelos Mações contra ela.....

Acrescendo que não veríamos tão perdida neste Reino,  por certo confiada tantas vezes a sujeitos inábeis, desacreditados, e viciosíssimos, se os nossos sabichões conseguissem moderar o espírito filosófico, que lavrado há cinquenta anos em Portugal influe onde menos se devia crer ou esperar.... mas fique para outras vez esta punhalada, em que se podem dizer bocadinhos de ouro!!!

Entremos pois nas vantagens políticas, e a fim de se evitar quanto couber no possível o tédio dos Leitores, reparta-se a matéria em pequenos artigos....

(a continuar)

06/02/18

O BRASÃO PELO QUAL SE PODE ORAR CDXLX

"DEFESA DE PORTUGAL" - AS TREVAS em PORTUGAL (c)

(continuação, parte b)

O campo é mui vasto para seguir, e expender a força de todas estas considerações; em esta Folha posso andar-lhe somente pela rama, mas sem ir à casca: as deduções são imensas, e eu tenho fito especial, em que queria acertar sem fazer grande estrondo. Quais são hoje os Funcionários Públicos, Ministros de Estado, Bispos, Generais, Grandes, e Titulares, (finalmente não exceptuo um só, nem a mim mesmo) que além da sua razão sigam a tradição, tendo esta pelo contraste da sua Ciência, da sua Justiça, da sua Religião, dos seus Costumes? Os que presarem a tradição, têm luz, não estão em trevas; os que não seguem senão a sua razão, estão em trevas. Ora bem; estão as trevas em Portugal, ou não? Ou por outra forma; Portugal está em trevas, ou não? Se ele segue a tradição tanto na sua Política, como na sua Religião, ele não esta em trevas, ou não há trevas em Portugal, pois que no seguimento de sua tradição tem luz, que o guie. Mas eu estou escrevendo na Quarta Feira da Semana Santa; a Igreja celebra neste dia as trevas sobrepostas à terra pela Morte do Salvador do Mundo: temos pois hoje trevas sobre todo o Orbe: mas estas são trevas celebradas, e aplaudidas, porque a Luz tornou a aparecer. Não são estas as trevas, de que eu prometi falar; trevas não choradas, mas amadas; trevas não pretéritas, mas presentes; trevas enfim, que parece não podem ser afugentadas. Porquê? Porque falta a Religião, falta a justiça, falta a razão, falta a luz, que brilha, quando se caminha pela razão, pela justiça, e pela Religião dos Maiores; eis pois as trevas em Portugal, ou Portugal em trevas.

Que ensina a tradição Portuguesa sobre as obrigações dos Vassalos para com ElRei? Obedecer-Lhe; defender o Estandarte Real; correr contra o inimigo, que acomete o Poder do Rei; pagar ao Rei os tributos, que Ele impõe; administrar fielmente a Fazenda Real; observar, e cumprir todos os Contractos com ElRei, e com os seus Ministros. Esta tradição é também Religiosa; ela é necessária à conservação da Sociedade. Mas a razão duma parte dos Portugueses de todas as Classes não segue esta tradição; eilos pois em trevas. Expendamos a tradição.

Obedecer a ElRei. Ah! Quantos dizem que não é pecado perante Deus o desobedecer-Lhe! Que não é matéria sujeita à Confissão! Que cada qual pode subtrair-se à sua obediência, sem pecar, todas as vezes ao mesmo desobediente, ou à sua família não resulte detrimento!! Eis a razão, e eis as trevas! Porém é isto o que ensina uma parte do Sacerdócio Português, e é esta a doutrina, que seguem os Povos! Não escrupulizam os Cristãos de desobedecer a ElRei! Falo, e escrevo de ciência certa. Onde estão os Pastores de Israel?

Defender o Estandarte Real. A deserção é na verdade um pecado gravíssimo; e os cúmplices, fautores, ou conselheiros dos desertores são réus do mesmo crime. Mas uma boa parte do Sacerdócio ensina que desertar não é pecado, que cada qual pode poupar-se ao trabalho quanto poder, seja como for; que ninguém está obrigado a opor-se aos perigos da guerra: os Povos seguem esta doutrina: há muitos Párocos, que encobrem os desertos; e Conventos também! Onde estão os Pastores de Israel? Falo, e escrevo sem susto de me enganar.

Correr contra o inimigo, que acomete o Poder do Rei. Esta obrigação reconheceu o Cristianismo na mesma Defesa dos Príncipes Gentios! Mas hoje ensina-se commumente (ao menos por este País, em que habito) que os Povos podem licitamente resistir ao Recrutamento com mão armada, revoltar-se contra a Ordenança, que ao Recrutamento procede; fazer fogo não só em próprio livramento, mas também no livramento de quaisquer Recrutas, ou sejam para a 1ª Linha, ou para a 2ª. Os Povos praticam livremente esta doutrina, ao menos no desgraçado Concelho de Aguiar de Sousa, (desgraçado em quanto não estiver reunido ao Julgado de Penafiel) e em outros muitos ejusdem furfuris, ac farinae. Alguns Párocos dão favor a estes valentões, que resistem às Autoridades. Pessoas de lenço ao pescoço oram por eles! Isto é pouco; os mesmos Párocos, e outros Sacerdotes, alguns Conventos, alguns desses Senhores de casaca, ou casacas de Senhores, lhes dão asilo em suas casas! O mais é haver Sacerdotes, Párocos, e Conventos, que têm dado, e dão couto aos inimigos mais encarniçados do Poder Real, e lhes escondem até o dinheiro, sem o qual o Exército, que peleja por ElRei, não pode passar. E Tudo isto não é pecado? Onde estão os Pastores de Israel? Eu não falo somente dos Ministros do Sacerdócio; o negócio é também com os Senhores Doutores in utroque jure, ou in uno tantum, que assim obram, assim instruem, como se lá as suas Leis não vedassem toda a resistência à Autoridade, toda a cumplicidade com o crime, e com os perpetradores do crime, e todo o asilo aos inimigos delRei. Eis a razão, eis as trevas em Portugal! Logo que apareceu a insurreição do Porto do ano de 1820 despedi-me das velhas Ordenações do Reino, com quem eu estava muito casado, ainda que velhas, e já refugadas pelos Senhores Doutores Barbilimpinhos; e adoptei em seu lugar a Constituição, que me custou quatrocentos réis, e mais de quatro milhões custou ela à Nação Portuguesa. Com efeito não tornei mais a ver as velhas Ordenações do Reino, e não me acho mal, porque em seu lugar observou-se comumente a razão particular dos Senhores Doutores: não gracejo; perguntem lá por isto ao Porto! Também agora estou para renunciar mui formalmente o meu Larraga, porque as suas doutrinais não são as correntes: já as de Simonia, e de Usura eram somente observadas pelos que não podem haver aquilo, que faz o objecto do pecado, e por isso tais Tratados não estão no meu Larraga; mas, como digo, estou resolvido a deixá-lo só na pele, porque aquilo de obediência às Autoridades do Poder do Rei, não é doutrina, de que façam grande apreço os Sacerdotes na sua instrução aos Povos, os Povos na confissão dos seus pecados, os Doutores nos seus conselhos aos Povos! Falo, e escrevo de ciência certa!

Pagar ao Rei os tributos, que Ele impõe. Este artigo e os que seguem, tem uma extensão, que o dia, em que estas coisas escrevo, não o sofre; mas saibam quantos estas poucas trevas a palparem, que se isentam de pagar todos os que o podem fazer; que procuram muito que os tributos carreguem sobre os outros; que delongam a sua solução, quanto lhes é possível; que finalmente olham para este ónus não como uma obrigação Religiosa, mas como um gravame Político, do qual não é pecado sacudir-se! Esta é a doutrina, que se inculca aos Povos, e que os mesmos inculcadores, e os Povos abraçam com muita vontade. Eis a razão, eis as trevas! A Igreja, a tradição dos nossos maiores ensinavam pelo contrário: veio porém a razão, e por isso só pintou aos Povos como livre o que era necessário, e obrigatório! E não há quem levante a voz por Deus, e por ElRei?

(continuação, parte d)

"DEFESA DE PORTUGAL" - AS TREVAS em PORTUGAL (b)

(continuação, parte a)

D. Fr. Fortunato de São Boaventura - Arcebispo de Évora. Defensor da Tradição católica em Portugal, contra o liberalismo e a maçonaria (séc. XIX)
A origem pois, a fonte, o princípio, o começo de todas as verdades primitivas, e necessárias ao homem, ou elas sejam Teológicas, ou Filosóficas, e estas em toda a acepção da palavra, está na tradição, ou notícia, que se deu ao homem. Aqui está a luz; fora daqui as trevas. Hão de se pois reconhecer, e aprender as verdades na Autoridade? Eis o homem besta, dizem os pimpões da Filosofia; mas eu lhes digo, antes o cego tenha homens que o guiem, do que as suas mãos, e pés: bem me entendem os adversários. Porém o que eles não entenderam é o que seja Autoridade; eu digo somente que o contraste de todas as verdades necessárias ao homem é a tradição, e a tradição não é a Autoridade; estudem a distinção esses presados de Sábios em qualquer Ciência, em que eles estejam versados: a razão pois, (e esta é a importantíssima consequência, que eu quero deduzir, e a demonstração, da qual está sobejamente encetada) que não segue a tradição, não segue a luz; está em trevas, seja em que Ciência, Arte, Faculdade, Profissão, e exercício fôr: a razão, que, no que diz respeito a Deus, não segue a tradição, caminha sem luz, anda às cegas, vai às apalpadelas, e isto é assim ou seja na que chamam Religião Revelada, ou na que chamam Natural. Epicuro é um perfeitíssimo pedante em matéria de Religião, porque não seguiu a tradição; a razão em um Médico, ou Cirurgião, Faculdades, u Profissões que mil vezes se dividiram, e outras mil se reuniram, não seguindo a tradição, que poderá indigitar em Hypocrates, ou em Galeano, ou em Paracelso, ou em outros dos mesmos tempos, vai perdida, caminha sem bússola, naufraga, e, o que é pior que tudo, faz naufragar a vida dos seus semelhantes: a razão num Filósofo, que não segue a tradição, é a razão dum cavalo furioso, que tomou, não a luz, mas o freio nos dentes, e deu consigo no pântano da sua vergonha, da sua ruína, e da sua morte; mas eu deixo estes meus amigos para outro dia que lá lhes chegará a sua Semana de amargura: a razão em um Jurista, ou Canónico, ou Civil, que não segue a tradição, a qual poderá achar nas suas próprias fonte, é a razão dum porco, que não sabe levantar o focinho da terra, ou que não pode olhar para a cara da gente! Oh! Quanto eu não teria aqui a dizer sobre homens, que tem no vulgo a consideração de Sábios em Direito, e, por não seguirem senão a sua razão, são a vergonha de toda a Jurisprudência! A razão em um Gramático, que não segue senão a sua razão, é a razão dum remendão de sapatos, que deita tombas novas em sapatos velhos, trazendo para o séc. XIX verbos, conjugações, géneros, e pretéritos, que já não tinham uso no séc. I!!!

D. Marcel Lefebvre, Arcebispo de Tule, defensor da Tradição católica na crise pós conciliar.
Seria coisa de nunca acabar; a razão de qualquer homem, que só segue a sua razão com desprezo da tradição, que é o contraste certo de todas as verdades convenientes ao homem, em qualquer matéria que for, em qualquer cargo, exercício, ou teor de vida, é a razão cega; não vê, não distingue, não conhece as verdades, porque lhe falta a luz; está em trevas; se acerta, é por acaso, foi às apalpadelas, e tropeçou em terra firme, devendo ter caído em um cachopo; ele erra de propósito, não pode deixar de errar, porque não pode conhecer que erra à falta de luz, que rompa as trevas; a razão desse homem, que não segue a tradição, seria uma razão inovadora, uma razão discordante, destrutora, e desordenada, por isso mesmo que se não ajustava à tradição, que é o contraste da verdade, a pedra de toque da justiça, o magnete da paz, o íman da Religião. Que é um homem sem tradição? Um bruto sem prisão; ou subjuga-lo, e metê-lo em seguro, ou matá-lo; é um revolucionário; é um díscolo, com quem os homens não podem ter paz; é um rebelde, que fará a guerra a Deus, e a ElRei, ainda que a sua razão admita algumas vezes as ideias necessárias de Deus, e de ElRei, pois que ele as admitiu como por acaso; tropeçou com elas; caiu para ali; mas como a tradição não segura a sua razão, esta se descartará facilmente com qualquer outra impulsão.

(continuação, parte c)

04/02/18

O BRASÃO PELO QUAL SE PODE ORAR CDXLIX

"DEFESA DE PORTUGAL" - AS TREVAS em PORTUGAL (a)


As Trevas em Portugal

"Nos fuimus fortes;et nos modo sumus; et nos aliquando erimus."

Dizem comumente os lamentadores dos Séculos passados que via faltando a Religião; e eu digo também que sim, porque falta a justiça; e falta a justiça, porque a razão falta. Qual a causa por que a razão falta ao homem, que é racional? Porque lhe falta a luz. Pois aí estão as trevas, as quais não são outra coisa, que privação, carência, ou falta de luz: o homem não vê a luz; somente por meio da luz vê os corpos lúcidos, os que brilham, ou aqueles, sobre que reflectem os raios da luz: isto dizem os Filósofos modernos, e dizem bem, se sabem o que dizem: o homem também não vê as trevas, porque não tem luz para as ver: também dizem isto os Filósofos. Mas o Vulgo diz que a luz se vê, e que as trevas se apalpam, ainda que se não vêm: não sei quem diz melhor: digo somente que, se o Vulgo se meter a Filósofo, pode perder as esperanças de ver a luz, e fique certo que só trevas apalpará. Eu falo nestas coisas com licença dos Filósofos, ou ao menos com título: todavia certo como estou, de que os Filósofos não têm feito nas Ciências, ou pouco menos, senão baralhar as ideias, adoptar outros vocábulos, ralhar uns dos outros, e saber menos o que mais ralha, meto o título do Filósofos no meu Larraga, e como Clérigo de mão furada, que não sabe mais que do seu Larraga, e não fará pouco se o entender bem, levanto a minha voz, e digo: Não há homem vivente que tenha visto a luz: Logo todos os homens estão em trevas. Ora aí se armam contra mim quantos campam de lidos, e de lentes, e já que lhes nego a luz buscam apalpar-me nas trevas; devagar, Senhores Mestres: Deus é a luz, e só ele luz: Quem viu a Deus? Nenhum vivente: aí está pois como todos os homens estão em trevas. Esta linguagem é Sagrada, e é sublime; desço algum tanto da altura, a que a Fé, que é uma participação enigmática da luz, me elevara, e digo: todos os homens (e nesta proposição ajunto as mulheres, já que as dos nossos dias querem correr parelhas com os homens) estão em trevas mais, ou menos; quero dizer, em trevas mais ou menos densas, sinais, ou menos frangíveis, dissipáveis, ou penetráveis: aqueles que se dizem ilustrados são os que estão em trevas mais voláteis, mais versáteis, e, deixem-me assim dizer, algum tanto diáfanas; esta linguagem não é totalmente imprópria para explicar verdades, que de mistura são Teológicos, e Filosóficos. Os homens não conhecem as coisas em toda a sua essência, ou em toda a sua cognoscibilidade: as verdades, ou Divinas, ou Humanas, nunca atingem a evidência com tanta força, que o homem enquanto vive não possa vê-las de uma forma obscura: finalmente a razão humana nunca está cheia cá na terra; mais defeituosa que a Lua, a qual recebe do Sol toda a sua claridade, a razão do homem sempre está em quarto minguante, ou no último quarto do seu quarto ocidente, que bem pode dizer-se que está em trevas, pois a luz, que tem, ou está a despedir-se que está em trevas, pois a luz, que tem, ou está a despedir-se, ou já no seu ocaso.

Venho de falar, e continuo Teológica, e Filosoficamente: todo o homem está em trevas; mas todo ele tem em si disposição, capacidade, ou potência para ver a luz, ou a substância, que emitem a luz. Esta luz não está no homem; recebe-a o homem. De quem? De Deus. Mas como pode persuadir-se que Deus comunica a luz ao homem? Todos os conhecimentos primordiais, ou, chamemos-lhes assim, constituintes do homem, ou eles digam respeito à Religião, ou à Sociedade, ou aos misteres da conservação, e da vida, vem da tradição; não do discurso do homem, sim de que o homem foi ensinado de uma maneira qualquer a tudo o que era mister com referência a Deus, aos outros homens, e a si mesmo. Só Deus pôde ensinar o homem, pois que nenhum homem nasceu ensinado: a razão pois do homem foi ensinada no seu princípio, foi ilustrada, foi irradiada: Logo todos os Conhecimentos necessários ao homem, ou digam respeito à Religião, ou à Sociedade, ou à Filosofia necessária, vieram ao homem do ensino; ou, que vale o mesmo, todas as verdades primitivas são tradicionais. Eis Deus; eis a tradição afugentando as trevas, luzindo ao homem, que em trevas estava envolto, para que veja o que lhe convém, e o que não; para que saiba distinguir o bem do mal, a verdade da mentira, a ciência do erro: enquanto o homem não perder de vista essa tocha da primitiva tradição, a qual, não obstante que parece esconder-se no princípio já não conhecido de tão longos Séculos como o homem conta, todavia, ainda mesmo assim ao longe, desde alguma luz; em quanto não virar as costas a esta luz, que ainda lhe aparece; enquanto andar no seguimento desta luz, que é uma faiscasinha de Deus que é luz verdadeira, poderá dizer-se que o homem não está totalmente em trevas; antes, que anda, e vê por onde anda, rompendo, e afastando as trevas para um, e outro lado; poderá dizer-se que a razão do homem ainda atinge muitas verdades, e que é capaz, no seguimento desta luz, de atingir todas as que lhe são necessárias para se saber dirigir com Deus, consigo mesmo, e com os outros homens: eu falo de todas as verdades, e de todos os conhecimentos necessários ao homem debaixo das ditas considerações, e insisto que todos eles vieram ao homem pela tradição, ou pelo ensino, e notícia, que no seu princípio lhe foi dado: O homem não formou a ideia de Deus: esta ideia vem-lhe da tradição: o primeiro homem a transmitiu ao segundo; Deus mesmo a ensinou ao primeiro; outro tanto deve dizer-se de todas as ideias verdadeiras primitivas, e necessárias ao homem; não é tempo de fazer demonstrações; os princípios, tenho: excepto as verdades Metafísicas, que pendem das nossas ideias, do ajuste que fazemos com as palavras, de combinações a nosso arbítrio, porque essas, muito agradáveis, e mesmo vistosas que pareçam, não são necessárias ao homem, nem para a Religião, nem para a Justiça, nem para a Sociedade.

(continuação, parte b)

29/01/18

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº10 (III)

(continuação da II parte)

Mosteiro de Alcobaça
Brevíssima Enumeração, ou Indicação Dos Serviços Feitos Pelas Ordens Religiosas à Monarquia Portuguesa

Antes de começar este acto de justiça para com as Ordens Religiosas estabelecidas neste Reino, deverei protestar, que apenas escrevo o que tenho de memória, e que fica salvo o direito a cada uma das sobreditas Ordens para manifestarem ao público as suas utilidades pretéritas e presentes. Oxalá que este meu ensaio conseguisse animá-las todas, para que cheias de um nobre e santo ardor pela sua respectica glória, deputassem os seus mais beneméritos filhos para escreverem, ao menos resumidamente, sobre tão importante objecto! Destinando-me apenas a indicar-lhes a gravidade, e o interesse, repartirei os serviços dos Frades pelas épocas mais notáveis da História Portuguesa.

1ª Antes da Monarquia:

Quem foram os que sustentaram na antiga Lusitânia os restos de um atenuado, porém glorioso Catolicismo, senão os Frades? Quem foram os cooperadores da liberdade das Espanhas, quando mais inundadas de Mouros, senão Frades? Que foram as Ordens Militares das Espanhas em sua origem, senão Comunidades Religiosas, que incessantemente ou levantavam suas mãos ao Céu, ou brandiam nos campos a lança e a espada? Quem foram os que rebatiam a fúria dos Agarenos no campo de Montemor-o-Velho, senão os Frades capitaneados pelo Abade João? Quem foram os principais auxiliares da restauração de Coimbra nos dias de Fernando Magno, senão os Frades Bentos de Lorvão? Derramados estes por todas as Províncias do que então se dizia Portugal, fizeram então mesmo luzir na agricultura aquela Província onde tinham maior cópia de Mosteiros, e não esperaram que Portugal fosse Monarquia independente para lhe desbravarem as montanhas, e reduzirem a cultura as mais empinadas serras, e as mais ingratas penedias, de que pode ser ainda hoje testemunha o Mosteiro antiquíssimo de S. João de Pendorada.

2ª Fundação da Monarquia até ao reino do Senhor D. João I

Aí começam os Pedreiros a morderem-se de raiva, e a vomitarem toda a sua peçonha contra a que eles chamam exorbitantíssima doença feita pelo Senhor D. Afonso Henriques ao Mosteiro de Alcobaça.... E deveria pouco este Rei ao Santo Abade de Claraval, devendo-lhe a confirmação de um título, que conforme as ideias recebidas naquele tempo não irá por diante sem aquela poderosíssima intercessão? E ficará devendo pouco este Reino a uma colónia de Frades, que receberam uns matos povoados de feras, e dentro de um século, à força de cultivarem a terra por suas próprias mãos, apresentaram um jardim aos que vinham de longe pedir-lhes, debaixo de certos encargos, uma parte do fruto e consequência dos seus trabalhos?

Outro tanto se deve afirmar do Mosteiro de Santa Cruz; e só Pedreiros manhosos e refalsos terão cara para ninguém que foram estes dois grandiosos Mosteiros bem como o dourado berço, em que se embalou na sua infância o Trono Português, que sem o poderoso auxílio destes Frades mal poderia combater felizmente os muito e quase insuperáveis obstáculos que o cercaram ao nascer: pois que negócio grave se decidiu naqueles tempos onde não figurassem principalmente o Abade de Alcobaça, e o Prior de Santa Cruz?

É quanto basta para os Mações, que não admitem profecias nem milagres; que se eu escrevera somente para os bons Portugueses, contentava-me de os levar à prodigiosa escalada dos muros de Santarém, e a doação de Alcobaça por certo ficaria a mais justa, valiosa, e inabalável... Pedreiros, eu torno para vós... Quem sabia nesses tempos alguma coisa de Dialectica, de Física, e de Medicina?... Os Frades... e chamamos um Frade primeiro Médico de ElRei D. Afonso III? Quando se tratou de fundar-se uma Universidade, quais foram os principais instigadores de tão profícua e gloriosa lembrança? Os Frades Crúzios, Bernardos, e Bentos.... Não eram planistas em seco, de que abunda, e por extremo, a nossa idade... Concorreram com avultadas somas para o salário dos primeiros Lentes; e a Universidade de Coimbra não poderá levar-se nunca desta origem fradesca, grão desar para ela no conceito dos seus alunos Mações...

3ª Desde o Senhor D. João I até à perda do Senhor D. Sebastião nos campos de África

Quem era o digno restaurador do Trono Português ameaçado nos fins do séc. XIV de cair em mãos de estrangeiros? Era um Frade professo na Ordem de Avis. Quem luzio à frente dos seus aclamadores na Cidade de Coimbra? A Corporação Benedictina. Quem afrontou o poder de Castela, e o dos Alcaides de Óbidos, Torres Novas, e Leiria, que seguiam a voz da Infanta D. Brites [Beatriz], para sustentar a DelRei D. João I, acudindo com viveres ao seu exército postado em Aljubarrota, com um reforço de mil homens bem armados, e com a sua própria pessoa durante a fugida do exército Castelhano? O Abade de Alcobaça D. João Dornela.

Encontro os Frades inesperáveis desse glorioso Monarca em suas expedições ultramarinas: são Frades os seus principais Conselheiros, e muitas vezes fez descansar em Frades o prazo dos negócios públicos.

Mas adiante os Frades acompanham os nosso primeiros descobridores: são eles os que dirigem as Missões Africanas, e especialmente a do Congo; e os Reis de Portugal por indústria dos Frades tem já convertidos à Fé muitos Reis por seus tributários.

Os Frades, como Santo António de Lisboa, D. Fr. Álvaro Pais, e Fr. Vicente o Pregador insigne, e outros muitos precederam a desejada restauração das Letras? Se as humanas tanto medraram e floresceram neste Reino, deve-se o melhor dos seus frutos ao Dominicano Fr. André de Resende, ao Jerónimo D. Fr. Braz de Barros, e aos Crúzios D. Damião da Costa e D. Heliodoro de Paiva.

Se os nossos estudos teológicos darão então um grande brado por toda a Cristandade, quem ignora que os Dominicanos Fr. Francisco Foreiro, e Fr. Jerónimo da Azambuja; que os Eremitas Augostinianos D. Fr. Gaspar do Casal, e D. Fr. João Soares; que o Cruzio D. Pedro de Figueiró, e o Jerónimo Fr. Heitor Pinto, e outros muitos Frades, tiveram a maior parte nestes brasões do Reino Português?

Mas que fui eu dizer! Um Pedreiro, que não conhece o verdadeiro objecto da Teologia, como há de tomar interesse nos progressos da Rainha das Ciências? Um Pedreiro, que tacha de fanatismo as diligências que já tiverem feito ou possam fazer daqui em diante para ser exaltado o Nome de Jesus Cristo, já se enjoaria, e não pouco, das Missões do Cónego; e por isso não o irritemos com a lembrança das nossas Missões da Índia, do Japão, da China, e de toda a Costa de África, nem lhe desafiemos o seu riso de piedade, mostrando-lhe o crescido número de Frades Pregadores e Mártires de Jesus Cristo, e passemos ao exame dos trabalhos que ele mais preza, ou finge estimar.

Os Religiosos de Santa Cruz de Coimbra exercitam, cultivam, e animam por todos os modos a Arte Tipográfica, que mal pensavam eles em que viria a dar esse instrumento da propagação das luzes. Se os Frades Arrábidos, Dominicos, e outros, sabem morrer pelo seu próximo na chamada peste grande de 1569, também os que restaram daquele contágio souberam morrer ao lado delRei D. Sebastião nos campos de África, fechando gloriosamente, no meio das próprias desgraças, e época do maior florescimento das Ordens Religiosas deste Reino.

Debalde se quererão opor os nomes de João de Barros, D. António Pinheiro, e Francisco de Andrade, como verdadeiros Mestres da nossa linguagem, aos nomes dos Carmelitas D. Fr. Amador Arraes, e Fr. Simão Coelho, do Cisterciense Fr. Bernardo de Brito, do Jerónimo Fr. Heitor Pinto, e do Dominicano Fr. Luís de Sousa, que já em 1578 era homem feito nas Letras humanas.. Quem não vê deste ligeiro esboço que todas as glórias, excepto a das armas, competem ao grau mais eminente às Ordens Religiosas!

(continuação, IV parte)

25/01/18

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº10 (II)

(continuação da I parte)

Mosteiro de Santa Cruz (Coimbra), um dos mais fortes resistentes à ordem de extinção
Rematado o Projecto de Reforma, seguiu-se pedirem ao Santo Padre Pio VI (ora reinante em a Igreja de Deus, e que este Senhor talhou expressamente para os dias mais calamitosos da sua querida Esposa) que o sancionasse com a sua notoriedade Apostólica, e o fizesse dar à execução neste Reino, e seus Domínios. Coroada seja do Pai das Luzes e heroica resistência do Santo Padre aos arestos das Sociedades tenebrosas! Glória ao Pai comum dos Fiéis, que não se abalou nem de promessas, nem de ameaças, e que por meio de repulsas tão judiciosas como oportunas acudiu à Igreja das Espanhas, salvando a de cair nos infernais boqueirões, que lhe abrira a Filosofia dos nossos tempos!! Rondam agora as Ordens Religiosas uma especial homenagem à Cadeira de S. Pedro, que se ela não fosse, teriam caído todas as deste Reino no sumidouro da extinção que foi jurada nas Lobregas e hediondas cavernas do Maçonismo. Declamem agora muito à sua vontade os Teólogos à Paviense, e os Canonistas à moda Gmeineriana contra as isenções e privilégios das Ordens Religiosas. Se por ventura não fossemos imediatamente sujeitos ao Vigário de Jesus Cristo, que seria de nós? Teriam os Bispos deste Reino assaz valor e firmeza para deixarem de lavar o Decreto da nossa extinção, quando isto dependesse unicamente da sua autoridade? A que parece nova Disciplina da Igreja, e que bastaria ser aprovada, e sancionada em Concílios Gerais, para que só este nome fosse uma espécie de mordaça na boca de alguns estouvados Canonistas, foi a nossa tábua de salvamento, pela qual deveremos instar e gritar todas as vezes que formos ameaçados de naufrágio.

Arrebatei-me um pouco; mas quem se atreverá a criminar-me de menos verdadeiro, ou de exagerado? Em todo o caso seria mui airoso para um filho a sair pela honra de sua Mãe ofendida e ultrajada; e qualquer excesso, a que em tais pontos se avalanche o amor filial, costuma ser facilmente perdoado. Continuemos.

Desesperados de conseguirem os Indultos Apostólicos, por que tanto forcejaram, e que lhe foram constantemente negados(no que pode a verdade histórica se deem os justos, e merecidos louvores ao Ilustríssimo Prelado D. José Cherubini, Delegado Apostólico em Lisboa, que informou exactamente o Santo Padre de todos os procedimentos arbitrários, e impios das Côrtes Lusitanas) rasgaram a máscara, e puseram de parte os princípios mais vulgares de honra, e de decência. Fiéis ao princípio geral Fernandino "de que tínhamos bulas para tudo quando quiséssemos" começaram de fazer por autoridade própria os esbulhos, as violências, as trasladações, e confusões para que não tinham podido da obediência ao seus legítimos, e verdadeiros Prelados, e os forçaram a prestar uma obediência contra aquela que tinham jurado na presença de Deus, e de todos os seus Santos... Confundiram os Religiosos de diversos institutos à sombra de uma analogia por eles sonhada, e logo erigida em fundamento dessas misturas conducentes ao fim de promover desordens, e fazer os Religiosos desprezíveis. Arrancaram de seus pacíficos asilos as virgens dedicadas ao Senhor, e as trasladaram para lugares distantes da Capital, onde lhes dava muito nos olhos a observância dos Conselhos Evangélicos que a todo o custo pretendiam acabar, e destruir.

Ora estes diferentes horrores apenas se indicam para terem lugar mas espaçoso em outro género de escritura; mas convém agora que lançadas, para assim o dizermos, estas primeiras delineações do edifício, nos demoremos um pouco não tanto em a questão geral já sobejante tratada, e por ventura exaurida em muitos escritos destes últimos tempos, como no exame das causas desse ódio figadal, dessa aturada perseguição dos Mações contra os Frades, e na sem-razão de tantos e tão iníquos procedimentos.

Eu temo, e por ventura mais que ninguém, cansar a paciência dos Leitores, e por isso mais de uma vez obrigo em qualquer destes números a minha pena a que deixe de correr à sua vontade. Sou breve mais pelo receio de enfadar, do que por falta de matéria. Examinemos pois:

I
Causas Gerais Que Reduzo Somente a Duas

Temporal, a saber, a cobiça dos bens, e riquezas dos Mosteiros. Não se lembram dos autores e fadigas, por que tiveram de passar os antigos Monges, para deixarem um bocado de pão aos actuais; não se lembram do sem número de bocas, que se mantêm às vezes do escasso rendimento de um só Mosteiro; nãos e lembram das grossas contribuições dos Mosteiros ricos para remédio das necessidades públicas; não se lembram de que não há mulheres rendeiros e feitores do Estado, do que são os Monges, e tudo lhes parece mal empregado neles. O que uma prudente economia fez guardar e poupar avulta de tal maneira diante destes olhos fascinados e prevenidos, que lhe parece estarem vendo em cada Mosteiro as delícias de Sardanapalo, ou as riquezas de Cresso. Diz Madona Stael que há uma classe de Pedreiros Livres ou Iluminados, cujo fim principal é assenhorear-se dos empregos mais lucrativos, e que em se vendo ricos, e fartos, andam contentes. Parece-me que são estes os sentimentos de todas as classes maçónicas; e a experiência demonstra que o seu grande princípio é este "O melhor bocado para nós e para os nossos, e o pior de roer para esses cães, para esses profanos".

2ª Moral, e vem a ser a profissão do Catolicismo. Esta ainda é mais forte que a primeira, segundo é lícito discorrer pelo que sucedeu na Revolução de França, onde o saque, e a profanação dos Mosteiros foi o menos, pois em verdade foi muito mais a solene, e jurídica abolição dos votos religiosos, e um dos motivos que fizeram protestar os Bispos Deputados à Assembleia nacional (que não foram cães mudos entre os gritos de morte - A Lanterna a guilhotina, e as espadas nuas, e as baionetas apontadas ao peito) os quais seguidos imediatamente da maioria dos Bispos que foram ao todo mais de cento e trinta (faltando só quatro) e roborados com a sanção do imortal S. Padre Pio VII, viram naquele Decreto mais pesada afronta ao Evangelho, e ao Supremo Legislador dos Cristãos.

É necessário que o Povo Português tenha os olhos abertos para ver o princípio da guerra mais ou menos activa, que há trezentos anos a esta parte se tem feito aos Frades. Os Luteranos, e Calvinistas, cujos maiores pela maior parte foram Ex. Frades, bramiram contra os seus antigos Irmãos. os Protestante não querem ver nem sombra de Frades, e por isso nos Teatros de Londres quando se quer apresentar uma figura ridícula e abominável, assoma algum Comediante vestido de Frade, assim como já o desenfreado Buchanan se vestiu de Frade para castigar a seu Discípulo depois Rei da Inglaterra e da Escócia Jacob VI, para infundir-lhe desde os mais ternos anos um entranhável ódio a quem vestisse hábito religioso. Os Puritanos aborrecem de morte os Frades, e que o digam os nossos Arrábidos que seguiram até Londres a Senhora D. Catarina Infante de Portugal, Rainha da Grã-Bertanha. Os Filósofos do séc. XVIII não têm papas na língua, para dizerem à boca cheia nas suas correspondências, e em milhares de obras impressas, que se devem extinguir os Frades, porque ensinam, confessam, prégam, catequisam, e são causa de que não possa ir abaixo a Religião Católica, segundo eles querem, e ardentemente desejam. Os Pedreiros Livres onde chegam a dominar, tudo é abater as Ordens Religiosas, tudo é intimar aos Reis que se apropriem os bens das Ordens, único remédio para se curarem as feridas da Pátria, que talvez só esses desalmados abrissem, levantando casas para seus filhos, que excedem às vezes em rendimento o de Ordem Religiosas que tem dez ou doze Mosteiros!! Fizeram a mais viva guerra aos Jesuítas, porque os Jesuítas ensinavam, e pregavam; e tudo isto era de graça, pois não custava aos povos nem cinco réis!!! E dado o caso que estes Frades dominassem os gabinetes, e influíssem nos negócios políticos mais alheios do seu estado, não haveria outro remédio para os coibir senão deitar a perder os mais fortes laços que prendiam os povos aos Reis, e estragar as Missões Americanas, Africanas, e Asiáticas? Quem lê a História Eclesiástica, não acha um só Reino convertido à Fé por industria dos Sumos Pontífices, em que não apareçam Frades, e por isso é que os Frades são perseguidos, e debaixo do pretexto de chamar as coisas à primitiva, hão de ser arrancados à obediência do Único que mais proveitosamente os pode empregar em serviço da Igreja Católica!! Até aqui são princípios gerais já sobejas vezes realizados em muitas Nações Europeias, que têm aprendido à sua custa o que são os Frades, e a grandíssima falta que logo se experimenta em todos os Reinos, que cometeram o indiscutível erro de os extinguirem: porém, é justo que desçamos a um rapidíssimo exame das causas do ódio, que se lhes professa neste Reino, onde eles contam inimigos até nas próprias classes onde só deveriam encontrar amigos, e defensores.

Serei o primeiro que se afoite a descobrir uma das principais causas deste ódio, que muitos saberão, e que por efeito de um medo pânico não se atrevem a denunciar. Importa-me agora ser breve, mas claro e terminante.

P: Porque Livros se estuda nas Escolas principais deste Reino a História dos Monges, o espírito das suas instituições, e a natureza de seus privilégios?
R: Nas Aulas por Gineiner, Cavallario, e Dannemair, e cá fora por Mosheim, Gibbon, e outros que tais.
P: Donde é tirado o que dizem Gmeiner, e Dannemair sobre as Ordens Religiosas?
R: De Mosheim, Bingham, e outros Protestantes, de que Dannemair se fez eco, não sabendo dizer senão o que eles dizem.
P: E onde param os Autores clássicos sobre a origem das Ordens Religiosas?
R: Ou são desconhecidos neste Reino, ou jazem no pó das Livrarias [bibliotecas], onde ninguém os consulta.
P: E que há de seguir-se de ais Mestres, alguns dos quais têm sido expressamente condenados pelos Sumo Pontífice?
R: O que nós vemos; e enquanto rejeitada e metida a bula a infalibilidade do Pontífice Romano, se acreditar cegamente na infalibilidade de Gmeiner, de Eybel, de Montesquieu, e Gibbon, e outras tais fontes da História Monacal, não se espere senão ódio mortal aos Frades.

Mutas graças devem eles a Nosso Senhor por terem escapado à tormenta pedreiral, e muito  devem rogar ao mesmo Senhor pela vida e segurança do Império de ElRei e Senhor D. João VI, que mais de uma vez se tem chamado a si próprio o único amigo das Ordens Religiosas. Confio da prudência dos nossos inimigos, que são todos ou Pedreiros ou defensores da Soberania do Povo, que hão de poupar-me o desgosto de aclarar mais e mais o que só por necessidade de sustentar a minha causa deixo apontado para se discutir algum dia mais largamente, e se me for possível, conforme a dignidade do assunto.

(continuação, III parte)

O BRASÃO PELO QUAL SE PODE ORAR CDXLVII

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº10 (I)

O PUNHAL DOS CORCUNDAS


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Nº. 10

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Ostendam gentibus nuditatem tuam


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D. Pedro I do Brasil - o grande perseguidor das ordens religiosas em Portugal - estátua equestre
na Praça da Liberdade, no Porto. É o mais significativo monumento ao Liberalismo; na sua lateral tem
a lista de nomes dos desgraçados liberais ("mártires da pátria") condenados à força, que postumamente o liberalismo fez heróis.

A PERSEGUIÇÃO DAS ORDENS RELIGIOSAS

Como faltaria aos nossos Liberais este requisito, que é de essência para ser ou parecer homem grande no séc. XIX? Esse próprio ferrete de ignomínia, que um Bispo Constitucional e Regicida imprimiu nos que aborrecem gratuitamente e como por ofício as Ordens Religiosas, é para os nossos Liberais um título de honra, e mais um brasão que deve acrescentar-se aos muitos que eles tem ganhado à custa da antiga Crença, e da Piedade Cristã. "Um óleo figadal às Ordens Religiosas é o carácter dominante das Seitas modernas" explica-se desta maneira o citado Bispo (Mr. Gregoire); e se de uma tal asserção podemos tirar consequências da maior honra para o Estado Religioso, nada mais se exigia por outro lado, para que os Pedreiros Livres requintassem naquele ódio, e o manifestassem por todas as artes e meios, que a sedução, as intrigas, e as baionetas puseram ao seu alcance. Tal Pedreiro houve, que ostentou publicamente de seguir o novo sistema, porque este lhe deparava em seus dias o gostinho de assistir à extinção da Canalha fradesca, e que só esta doce esperança o faria desembainhar gostosamente a espada, a fim de cometer a mais abominável perfídia, voltando-a contra quem lha cingira, e o cumulara de honras e privilégios.

A república Maçónica em 1914 fez juntar esta placa ao monumento Liberal da estátua equestre de D. Pedro de Alcântara. Lateralmente contém a lista de nomes dos desgraçados liberais e maçons a quem a maçonaria insiste em chamar "mártires da pátria". Estes devotos de D. Pedro, o maior inimigos das Ordens Religiosas em Portugal, que a todas extinguiu.
Todas as miras Fernandinas se puseram logo nos cabedais e possessões dos Mosteiros, como seguríssimos fiadores do sistema, que ou conseguiram faze-lo andar para diante quando alguma vez emperrasse nos maus passos e caminhos por que deveria transitar, ou em último recurso tapariam o deficit enorme, que às mãos cheias de outro Português espalhado na França e na Inglaterra pelos irmãos Propagandistas, causariam antes de pouco tempo.

Tão aleivoso como ingratos, mostravam-se fagueiros e benévolos para com as próprias vítimas destinados ao sacrifício, e aí dos Mosteiros que ficavam expostos à passagem destas aves de rapina, quando vieram fazer o seu ninho na Capital do Reino, pois viram consumir-se em um dia o que talvez chegaria para o seu gasto ordinário de muitos meses!!! Apenas repimpados no Trono Bragantino, que pasmou de se ver assim usurpado e denegrido, com sairão logo de assoalhar, por via dos seus emissários incumbidos de apalparem os ânimos, e sondarem a opinião pública, as sátiras indecentes, os aleives mais descomedidos, e as calunias mais atrozes, contra os frades, que nem sequer pestanejavam ou se buliam contra um sistema, que vão proclamando por entre arcos triunfais, e uma adesão, que parecia livre e espontânea, de todo o Reino. Quase não assomou um só dia no nosso horizonte esse memorando Astro da Lusitânia, sem despejar alguma porção de suas manchas e fazes contra as Ordens Religiosas, e que em se lembrasse de vexar e denegrir algum Mosteiro, em qualquer dos seus habitadores, achava sempre uma porta aberta de par em par naquele execrado papel, em que a mordacidade supria as vezes de talento, e a desenvoltura das expressões era todo o mérito que o fez estimado da gentinha, e dos adeptos. Quando poderão esquecer neste Reino essa torrente de calúnias despejada sobre os Padres de Maceiradão, sobre os Padres Carmelitas descalços dos Conventos do Porto, e de Olhalvo?

Tais infâmias só deverão ter cabimento nos anais dos Filibusteiros, ou dos Argelinos; e para nossa vergonha foram tramadas por homens Portugueses!!! Não... Não ...

Que se havia de esperar de escritores subalternos, que por ventura mais apertados de fome que de outro qualquer poderoso e estímulo, se metiam por devoção na Irmandade dos caluniadores, quando o próprio Diário do Governo se ocupava gostosamente em recolher nessa verdadeira estrebaria de Augeas toda a imundície dos Claustros... Se algum Frade vicioso ou descontente queria desafogar a sua paixão... escrevia para o Diário do Governo... e o Diário do Governo lançava em suas hediondas páginas mais este documento de licença e de imoralidade... e como se tudo isto fôra ainda pouco, e ainda muito abaixo da importância e dignidade da matéria; os próprios Corifeus da Horda Revolucionária, furtando à Nação o tempo que esta julgou conceder-lhes para somente a felicitarem, e remirem da viuvez em que se considerava na ausência do seu Rei, do seu Benfeitor, do seu querido, e tão querido Pai; geraram um novo Periódico, que debaixo do nome de Independente só realizou esta alcunha pondo-se muito acima do que fôra decretado nas Bases, e na própria Lei da Liberdade da Imprensa, vomitando contínuos insultos às Ordens Religiosas, qualificando de inimigas da Pátria as mais conspícuas e autorizadas Corporações, e fazendo-se o arauto dessa Tolerância Religiosa, único fim de todos os novos Legisladores. Pobre de quem saísse ao encontro desses Fernandes, desses Borges, ou não temesse os prestígios da Moura encantada, que por mais razão que tivesse, e por mais força de que revestisse os seus argumentos, deveria necessariamente ou fugir ou ser amarrado num calabouço, que a este ponto chegaram as pomposas liberdades que os nossos Regeneradores tantas vezes nos prometiam e anunciavam.

No meio porém de todos esses ameaços feitos as Ordens Religiosas notou-se uma certa inacção, um certo desleixo assaz repreensível em homens audazes e empreendedores. Aprontou-se tarde o Projecto de Reforma, Ainda mais tarde se discutiu, e parece que não foi desserviço, antes especial favor para as Ordens Religiosas todo esse procedimento, pois as medidas legais, e não os dicteiros das Gazetas são as que podem mostrar o verdadeiro espírito dos Governos.

Assim discorreram ainda hoje os Pedreiros Livres para se fazerem menos odiosos, e talvez para serem tidos na conta de protectores (à francesa pode ser) e amigos dos Frades!!! Estratagema é este não menos ocioso que ridículo, que nem esses mesmos poderão ficar largo tempo iludidos! Sempre com os olhos fitos na sua honrada vizinha, e no bom ou mau sucesso das traças de seus Regeneradores, virão os nossos que a extinção dos Mosteiros de Espanha foi um dos principais incentivos da guerra civil, e que depois de ter coberto de luto inumeráveis famílias que se mantinham da beneficência e generosidade daqueles Mosteiros; depois de ter chegado a uma vida errante, vagabunda, e miserável os há pouco fartos e abastados; depois de ter feito despejar nos cofres Nacionais somas imensas, que tiveram a mesma sorte da água com que as Danaides, conforme a antiga mitologia, deviam encher uma pipa sem fundo; longe de preencher as vistas dos Reformadores, só conseguiu aumentar e engravescer os já crescidos males da Pátria... assustaram-se... retrocederam um pouco, a fim de poderem lá mais para diante fazer a salvo quanto pretendiam ...

Foi decretado nas Lojas Maçónicas que a extinção das Ordens Religiosas fosse lenta e vagarosa. Não obstante a impaciência de muitos Vigilantes, Rosa Cruzes, e Veneráveis, para os quais já tardavam muito as formosas Quintas de Fôja, de Almaiara, da Cardiga, e outras semelhantes, concordou-se nas delongas, como de absoluta necessidade para se obter o fim sem graves incómodos, e sem perigo de comoções, e efervescências populares, já que uma Ordem, que não é das ricas, e o devia ser pelo muito que a tenho visto empregar-se no serviço da Igreja e da Pátria, quero dizer a dos Agostinhos Descalços, sendo a própria que exigia a supressão de alguns dos seus Conventos, achou a mais viva resistência nos povos circunvizinhos dos tais Conventos, que poderiam às Côrtes a conservação dos seus Frades, que não o seu refúgio nas doenças da alma e do corpo, sustentando os pobres nas suas portarias, e assistindo a todos de dia e de noite nos transes da passagem deste mundo para a eternidade.

Guardando para outra vez um exame seguido e especial dos Projectos de Reforma dos Regulares, que as circunstâncias do tempo não consentiram fossem analisados da maneira que convinha, e então farei ver a monstruosa ilegalidade de tais Comissões, e a ignorância dos mui altos sabedores que as formalizaram, nomeadamente o primeiro, visto que os Autores do segundo fizeram talvez mais do que se devia esperar de homens sufocados pela irresistível preponderância da Facção Fernandina; por ora tocarei somente em uma anedota, que põe à claras o verdadeiro espírito daquela Comissão. Tenho-a de um varão egrégio em ciência e costumes, por quem suspiram as principais Mitras deste Reino, e que fez parte das Côrtes chamadas Constituintes, o qual ouvindo nomear a Comissão de Reforma dos Regulares, lembrou-se (pelos bons estudos que tem nestas matérias, e noutras as mais estranhas do fim principal de suas continuadas e indefesas aplicações) lembrou-se de apontar algumas espécies de interesse para os tais colaboradores do Projecto de Reforma. Chegou à porta do gabinete, ou casa onde trabalhavam, e por obrar de boa fé, e segurar-se, perguntou.. Trata-se de reforma, ou de extinção? De extinção. Respondeu um Ex-Frade, classe esta donde costumam sair desde Lutero para cá os melhores reformadores das Ordens Religiosas, como veremos a seu tempo!! A Estas palavras retirou-se pasmado o nosso Transmontano, e nunca mais duvidou que o Sistema Constitucional era ou se reputava incomparável com a existência de Frades, pois de que servem Frades em um Reino que apostáta do Cristianismo? E o Sistema Constitucional, como o traçaram os nossos Regeneradores, não pode existir sem a mais viva, e encarecida guerra ao Cristianismo: sim ao Cristianismo, que prescreve a sujeição aos Rei como dever de consciência, e nem os próprios Neros julga amovíveis do trono; sim ao Cristianismo, que fulmina todos os juramentos de liberdade, de igualdade, e ódio à realeza; sim ao Cristianismo, que será constantemente uma barreira invencível ao progresso das Ideias Liberais, que onde entrarem, e dominarem, hão acarretar necessariamente consigo a expulsão dos Frades, Clérigos e Bispo, das Santas Imagens, dos Sacramentos, e de tudo que cheirar a princípios Cristãos. Perdoem-me os Leitores esta pequena digressão, e voltem comigo ao meu principal intento.

(
continuação, II parte)

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